Elaboração de Resenha

 

A leitura, compreensão e o fichamento de textos científicos são os primeiros recursos metodológicos que utilizamos para a realização de trabalhos acadêmicos; pressupondo um contato mais rigoroso com o material didático normalmente utilizado na Universidade, constituem os primeiros passos em direção a uma postura crítica em relação aos temas abordados nas várias disciplinas.

O principal objetivo da resenha é elaborar comentários sobre um texto, para publicação ou divulgação. Como atividade acadêmica, é utilizada para que o educando se familiarize com a análise dos argumentos utilizados para se demonstrar /provar/descrever um determinado tema. Pressupõe uma leitura rigorosa do texto deve conter: informações gerais sobre o texto; comentários sobre a idéia central do texto; comentários sobre o plano de assunto do texto; comentários pessoais e críticas.

Inicialmente, deve-se identificar autor, texto, época em que o texto foi redigido, tecendo um breve comentário para se compreender os objetivos do texto e sua idéia central. A seguir, deve-se sintetizar cada parte do plano de assunto (no caso de livros, cada capítulo) na mesma seqüência lógica em que se apresenta, num esforço pessoal de reflexão sobre os elementos fornecidos pela análise do texto.

Quanto aos comentários pessoais, analisar a importância do texto, comentar a sua influência dentro da área a que pertence e as conseqüências mais significativas de sua publicação.

Na crítica, deve-se levar em consideração os aspectos referentes à publicação do texto; à revisão textual; atualização de gráficos e tabelas, atualização da bibliografia utilizada pelo o autor, bem como à seqüência lógica e organização do texto.

É fundamental que o educando estabeleça um “diálogo” com o autor, identificando os pressupostos teóricos que orientam o texto, assim como os argumentos que o autor “teceu” em torno da idéia central. Uma resenha deve ser sintética, aproximadamente de três a cinco folhas digitadas.

 

Exemplo de uma Resenha

 

RESENHA CRÍTICA - Paulo Gileno Cysneiros

PAPERT, Seymour M. A máquina das crianças: repensando a escola na era da informática. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994. 210 pp. Tradução de Sandra Costa, do original The children's machine. NY, Basic Books, 1993. Consultoria, revisão e supervisão técnica de Maria Carmen Silveira Barbosa (da Faculdade de Educação da UFRGS).

 

O professor Seymour Papert foi um dos fundadores do laboratório de inteligência artificial do MIT (Massachussetts Institute of Technology), foi o responsável, no final dos anos setenta, pelo desenvolvimento da linguagem Logo, na época um grande avanço para o uso da Informática na educação. A linguagem foi desenvolvida  tendo por trás uma concepção de aprendizagem, ensino, escola, educação, informalmente conhecida como “Filosofia Logo”. Em meados da década de oitenta, Papert idealizou um tipo de robótica para crianças, ao desenvolver o brinquedo Lego-Logo, em parceria com a empresa dinamarquesa  Lego, introduzindo motores, sensores e engrenagens nos tradicionais blocos de construção, possibilitando o  controle de dinamismos através de programas simples escritos em Logo pelo aprendiz (p.173).

Papert sempre foi um questionador do establishment da Educação norte-americana, particularmente da tradição comportamentista (behaviorista). É admirador de Paulo Freire (em depoimento transcrito na contra-capa, Freire elogiou este livro) e de John Dewey, principal filósofo norte-americano da Educação (e da tecnologia). Ainda em meados dos anos oitenta, Papert influenciou diretamente o projeto nacional de introdução de computadores na educação na Costa Rica, baseado no uso do Logo (parte da experiência é descrita neste livro).

Para entendermos melhor a obra, é necessário nos referirmos ao primeiro livro do Papert sobre computadores e Educação, publicado nos EUA em 1980 com o título Mindstorms: Children, Computers and Powerful Ideas. O neologismo Mindstorms funde duas palavras inglesas: mind (mente, intelecto, inteligência), e  storm (tempestade, paixão). O novo termo leva o leitor (de língua inglesa) a associá-lo com a palavra brainstorm (tempestade cerebral), que denota um estado emocional, uma idéia resultante de um excitante momento de trabalho intelectual, de novas intuições. Uma tradução livre do original poderia ser Paixões do Pensamento: Crianças, Computadores e Idéias Poderosas. Na época - início dos anos oitenta, quando estavam surgindo os primeiros computadores pessoais - , o livro tornou-se rapidamente a obra mais conhecida sobre o tema, cujo lançamento no Brasil só ocorreu em 1985 (CYSNEIROS, 1991). Esgotado, o livro foi reeditado no início deste ano nos EUA, com um novo prefácio.

Na obra atualmente o uso da linguagem Logo tenha arrefecido com o lançamento de bons software de autoria, ainda existem milhões de usuários Logo em todo o planeta, utilizando versões bem diferentes das primeiras (para dos e similares), que hoje incorporam avanços técnicos como interface gráfica tipo Windows e estrutura multimídia. Paralelamente à publicação do livro, desenvolveu-se, na época, um movimento educacional entre os usuários da linguagem, com práticas e idéias próprias. Eram conhecidos nos EUA como Logo followers, no Brasil referidos como loguistas.

Uma da idéias que permeiam o livro é que a familiarização com computadores ligados em redes, proporcionará às crianças um maior grau de independência no acesso a informações sobre o mundo, sem depender de adultos. Esta idéia certamente originou o nome do presente livro: o computador em rede será a máquina das crianças, a Máquina do Conhecimento.

Na obra a Máquina das Crianças tenha sido publicado treze anos depois do Mindstorms, a linguagem Logo e sua filosofia ainda permeiam boa parte do livro, porém de modo comedido. O livro não teve o impacto do primeiro e não foi bem recebido em alguns meios acadêmicos. É  composto por um prefácio e dez capítulos, abordando diversos temas relacionados com o uso de computadores pessoais na educação.

Como no Mindstorms, Papert não escreveu primariamente para a comunidade científica. Nas primeiras páginas, informa que seu propósito foi provocar e incentivar a imaginação do leitor, algo que ele consegue fazer muito bem. Não se esperaria de uma obra deste tipo – de tentativa de comunicação com um público amplo – citações técnicas e a objetividade impessoal de um texto acadêmico. É um livro gostoso de ler, apesar da péssima tradução brasileira.

Nos seus escritos e conferências, Papert gosta de inventar novos termos, certamente um indicador da sua criatividade e da riqueza do ambiente intelectual onde tem vivido. Esta característica também se encontra na presente obra, já no título do primeiro capítulo, Yearners and Schoolers, com uma tradução brasileira que deformou completamente a intenção do autor. Yearners origina-se do verbo yearn (desejar fortemente algo dificil de se realizar, como a ânsia por liberdade, de pessoas que vivem em um regime autoritário); Schoolers, uma nova forma verbal infinitiva do substantivo school (escola), significa aproximadamente "defensores da instituição escolar na sua estrutura atual".  A tradutora usou os termos fáceis "Inovadores" e "Conservadores", que possuem outros significados, tanto em inglês como em português, sem sequer mencionar os neologismos originais. Na  página 43 o  próprio autor usa os termos “inovações/inovadores” com significados diferentes do título do capítulo um. Outra confusão com a mesma vocábulo em português encontra-se na página 176: hard science  foi traduzido como “ciência conservadora”. A expressão original tem um sentido muito diferente, significando ciencia sólida, estabelecida, amparada por evidências acumuladas.

Uma opção seria não traduzir os neologismos, informando ao leitor as raízes lingüísticas e as prováveis intenções do autor em cada caso. Outra alternativa seria explicar os significados e criar neologismos  em português (no título do capítulo poderia ser algo como Inovistas vs. Escolistas). Pessoalmente, prefiro manter o original comentado, pois neologismos são escorregadios, especialmente em traduções.

Neste mesmo capítulo um, as páginas 17 e 18, abordando questões de alfabetização e leitura,  também estão muito mal traduzidas, tornando a leitura dificil pelo jogo de outros  neologismos mal adaptados para o português.

Para ilustrar sua tese sobre a obsolescência da escola atual, Papert inicia o primeiro capítulo com uma anedota que tornou-se comum nos meios educacionais. Conta a estória que se médicos e professores do século dezenove nos visitassem hoje, teriam reações bem diferentes. Os primeiros não reconheceriam as atuais salas de cirurgia, devido ao avanço da medicina, mas os professores se sentiriam à vontade se entrassem numa sala de aula cem anos depois.

Embora esta anedota tenha um lado bom, ao salientar as poucas mudanças havidas neste século na instituição escolar, considero-a inadequada em vários aspectos, pois pode deixar a impressão que os problemas da escola estão, na raiz, relacionados com a ausência de artefatos tecnológicos, especialmente de computadores, e que os professores são os principais responsáveis pelo seu “atraso”.

Embora ninguém discorde que a escola precisa atualizar-se tecnologicamente, a tese acima tem sido amplamente refutada (CUBAN, 1986), aceitando-se que os problemas da Educação não serão resolvidos pela tecnologia. Até mesmo outros estudiosos do uso de computadores na escola (e.g. PERKINS et alli, 1995, de um grupo de Harvard, universidade vizinha ao mit), concordam que mesmo com todas as dificuldades, a instituição escolar dirigida para a educação de populações –  com seus professores, livros textos, quadro e giz, currículo e organização escolar –  constitui uma das invenções fundamentais da civilização contemporânea.

Nos capítulos dois e cinco, entre outros, Papert expõe o que poderíamos chamar de "teoria introspectiva de aprendizagem", usando como ilustração exemplos autobiográficos de infância e de suas experiências como adulto. Uma das idéias centrais é que aprender deveria ser sempre algo prazeroso, evitando-se enfatizar apenas seus componentes  racionais. Não separar o emocional do intelectual é um sentimento que ele carrega há muito, desde a época quando trabalhou com Piaget e sua equipe em Genebra.

Esta perspectiva da gênese do conhecimento, de certa forma hedonista, é encontrada na história das idéias, da Filosofia  antiga à Psicologia contemporânea, ligada ao fenômeno da curiosidade humana perante o novo, o desconhecido, até mesmo o proibido. Esta última forma de curiosidade foi recentemente tratada exaustivamente em um belo livro (bem traduzido) por Roger Shattuck (1998), um pensador da Universidade de Boston, outra vizinha do mit. Certamente a química intelecto-emoção, que deve ocorrer em lugares recônditos do nosso cérebro – ainda pouco conhecidos da ciência – é um dos principais ingredientes da aprendizagem mais nobre, que alguns chamam de criatividade. Criar para sí próprio é um tipo muito especial de prazer, mais humano do que quando é só emoção, ou só razão. Pode estar no esporte, no vídeogame, na solução de um problema de matemática e talvez seja a essência da linguagem Logo. Separar as duas coisas é uma das deformações que a escola impinge às crianças.

No terceiro capítulo Papert analisa as respostas da instituição escolar às perspectivas de mudança. Apresenta uma boa discussão sobre CAI, traçando suas raízes e apontando suas fraquezas. Tendo vivido a história da Informática na Educação nos EUA, ele reflete sobre sua contribuição na época, contrastando com a linha instrucionista desenvolvida por Patrick Suppes, outro nome pioneiro na área. No mesmo capítulo o autor propõe uma pesquisa educacional em parceria com a escola, do ponto de vista da escola (p.43), que nos lembra a crescente popularidade da pesquisa em educação com enfoque etnográfico. Em outras partes do livro reafirma sua posição (p.ex., p.26), já explicitada no Mindstorms, de crítica ao tipo de pesquisa sobre aprendizagem encontrada em certos setores da comunidade acadêmica norte-americana, sem uma perspectiva epistemológica sólida.

No capítulo quatro discute a questão dos professores, reconhecendo, em retrospectiva, que eles não são o maior obstáculo para a transformação da escola e que não escreveu o Mindstorms com os professores em mente (p.57).

Sua maneira superficial de tratar certos assuntos onde já existem bons trabalhos, certamente irritou pesquisadores como o inglês Neil Mercer, da Open University (1995), que em uma curta resenha do livro, numa prestigiosa publicação especializada, referiu-se a  Papert como “...an archetypal North American born-again computer buff”, embora reconhecendo, no final, que o livro é estimulante e merece ser lido, pois mexe com idéias estabelecidas.

Papert explora a junção potencial de duas tendências no mundo contemporâneo, uma tecnológica e outra epistemológica. De um lado, as tecnologias da informação estão abrindo, em uma escala sem precedentes, oportunidades para melhoria dos ambientes de aprendizagem; do outro, vem ocorrendo muita mudança no pensamento sobre a construção individual do conhecimento (no capítulo seis a antropóloga cognitiva Jean Lave, da didática da Matemática, é uma das poucas referências elogiosas de Papert a um pesquisador educacional).

Seus autores preferidos são Jean Piaget (com quem trabalhou na década de sessenta, em Genebra, na época em que doutorou-se em matemática, na França, onde o conheceu como professor na Sorbonne) e Paulo Freire,  que ensinou e publicou em Harvard, após ser expulso do Brasil pelo regime militar . Ele cita ambos em um artigo sobre Piaget, na revista time, em um número especial sobre as principais mentes do século (PAPERT, 1999).

Uma leitura atenta revela um colorido autobiográfico em praticamente todo o livro. Papert lembra a criança que existe em todos nós e que ele não sufocou (p.36),  mantendo-a viva em sua trajetória profissional, deixando transparecer seu lado profundamente humano.

Como outros, ele acredita que construir conhecimento deveria ser sempre algo prazeroso e talvez seja essa a deformação maior que a escola convencional impinge às crianças, muitas vezes reforçando um processo que começa no próprio lar (especialmente em crianças que nunca souberam o que é lar, como é comum nas grandes cidades brasileiras). Numa escola comum, a destruição ou o embotamento deste prazer é algo que ocorre com freqüência já nas primeiras series.

Muito do que Papert defende vem sendo dito e tratado, há bastante tempo, por pensadores que conhecem bem a educação brasileira e seus problemas. Uma de suas idéias  -  tornar o estudante o sujeito do processo de aprendizagem, não o objeto  - (p.20), é algo que vem sendo preconizado em várias parte do mundo, desde Montessori e Freinet.

É necessário uma perspectiva de Educação Comparada para se apreciar devidamente outra tese do livro, que existem fortes sentimentos de insatisfação, dentro da sociedade como um todo, com os sistemas educacionais (não esqueçamos, ele escreve numa ótica norte-americana e européia, apesar de muito viajado). O Brasil, como muitos outros países em desenvolvimento, possui histórias e problemas diversos. Temos uma boa escola particular, que vem se adaptando rapidamente às mudanças  tecnológicas, e uma escola pública com deficiências estruturais tão grandes, que se atingíssemos a situação “insatisfatória” das escolas dos países desenvolvidos (quanto ao nível de formação de professores, instalações físicas e infra-estrutura, alocação de recursos, etc.),  estaríamos  em um mar de rosas.

Mais notas de rodapé poderiam ter sido adicionadas, procurando esclarecer o uso de neologismos. A tradutora poderia ter informado, em vários casos, as raízes inglesas dos neologismos, para que o leitor não especializado pudesse compreender os sentidos de muitas construções tratadas no texto.

Em muitas passagens existem problemas sérios de tradução, especialmente falsos cognatos, presentes já no segundo parágrafo da primeira página: graduate students (alunos de pós-graduação), foi traduzido por “alunos de graduação”. Um pouco mais adiante (p.13),  a expressão looking at samples  foi traduzida por “observar amostras”, distante do significado original (examinar exemplos). Duas páginas à frente, o leitor ou leitora encontrará a frase “exploração vicarial” (vicarious), onde seria mais adequado  “exploracão virtual”. Na página 43, administer (ministrar) foi traduzida por “administrar”. Na página 174, leading edge  significa “linha de frente” e não “extremidade cortante”. Sensible, (sensato, p.181), foi colocada como “sensível”; “danish” (p.187) significa dinamarquesa e não “holandesa”. E assim por diante.

A revisão técnica também deixa muito a desejar.  Como exemplos, na página 103 está escrito que “...o antropólogo cognitivo Jane Lave...”. A professora Lave, uma figura internacional, é bem conhecida na comunidade acadêmica brasileira de Psicologia Educacional. A pesquisadora Sherry Turkle, do MIT, também é referida como sendo do sexo masculino (p.132). Na década de oitenta ela já era conhecida como autora de um livro sobre Informática na Educação (hoje ela é internacionalmente reconhecida como uma antropóloga do ciberespaço).

No final do livro, são colocadas as mesmas fontes de informação sobre Informática na Educação contidas na edição original,  sem nenhuma adaptação para o  Brasil, onde existem versões em português do Logo e vários grupos de pesquisa  trabalham há muito com a linguagem.

Em suma, faltou, como infelizmente é  comum nas traduções publicadas por várias editoras brasileiras, um trabalho conjunto editor/autor/tradutor.

Finalmente, a ilustração pobre da capa da edição brasileira – um monstrengo composto por uma “cabeça-tela-de-computador” separada do tórax-teclado com mãos e braços,  e das pernas  de uma criança com uma pasta escolar ao lado -, dá ao leitor potencial uma idéia em total desacordo com o espírito do livro.

Referências

CUBAN, Larry. Teachers and machines: the classroom use of technology Since 1920. NY, Teachers College Press, 1986.

CYSNEIROS, P. G. Resenha Crítica. Logo: Computadores e Educação. Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos, Brasília (MEC/INEP), vol.72, n.170, p.106-109, jan./abr., 1991.

MERCER, N. Book Review. The Children’s Machine. British Journal of Educational  Psychology, vo.65, n.2, pp. 262-263, June, 1995.

PAPERT, S. M. (1985). Logo: computadores e educação. SãoPaulo: Brasiliense, 1985.

______. Jean Piaget. time International  March 29, 1999, Special Issue, The Greatest Minds of the Century, 1999.

PERKINS, David N.; SCHWARTZ, Judah L.; WEST, Mary M.; WISKE, Martha S.  Software goes to school: teaching for understanding with new technologies. NY, Oxford, 1995.

SHATTUCK, R. Conhecimento proibido: de Prometeu à pornografia. São Paulo, Companhia das Letras, 1998.


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